As Aventuras da Garota Impossível – A Cidade da perdição [conto autoral]

Salve, salve, seres humanos e animaizinhos antropomórficos da terra.

Ao contrário do que eu costumo aqui no portal, hoje eu tenho um conto de minha autoria para vocês. Espero que gostem:

As aventuras da Garota Impossível e a Cidade da Perdição

Na entrada da cidade tem um guarda. – Quem vem lá!? – Grita o guarda
– Lá aonde? – pergunta a Garota Impossível

O guarda coça a barba e fecha os olhos bem fechadinhos.

– Quem é você?! – grita ele novamente
– Sou a Garota Impossível. – responde ela.
– Isso não é possível.
– Foi o que eu disse.
– Que tipo de pai dá um nome assim para uma garotinha?
– Esse é meu codinome, seu bobão. – Chega perto do guarda e sussurra – Meu nome é secreto.

O guarda olha a garota de cima abaixo.

– Muito bem, senhorita Secreto. O que te traz à Cidade da Perdição?
– Minhas pernas. Por quê?

O guarda aponta o dedo na cara da garotinha e começa a gritar.

– Olha só, mocinha! Eu estou tentando fazer meu trabalho aqui! E você não está ajudando!
– Calma, moço. Não precisa ficar nervoso. – Ela enfia a mão no bolso e tira um papel – O Prefeito Porco me mandou essa carta pedindo a minha ajuda para resolver um mistério. Olha aqui, ó.
– Deixa eu ver isso. – o Guarda, já mais calmo, pega o papel. Pela primeira vez a conversa estava indo por um caminho que ele estava acostumado. – Parece autêntico.
– E aí? Posso entrar?
– Mas é claro, senhorita Secreto. Seja bem vinda à Cidade da Perdição.

***

Entrando na cidade, pisando apenas nos tijolos pretos do chão, nossa heroína é surpreendida por Pedro, o Homem Rato, correndo em sua direção e falando depressa:

– Garota Impossível! Que bom que você chegou. Precisamos de ajuda! O Prefeito Porco perdeu a cabeça!
– Ele enlouqueceu?
– Não. Ele perdeu mesmo a cabeça. Venha comigo.

Eles correm em direção à prefeitura, passando pela escola do Professor Sem Nome com sua bela placa em branco, pela placa da cidade com os dizeres “Bem vindos à cidade da Perdição. Tente não se perder. Obrigado”, pela gangue dos ladrões mágicos com suas belas cartolas, e quase atropelando o padre, o Senhor Louva-a-Deus.

– Benção, padre. – diz o Homem Rato. O Padre Louva-a-Deus faz um gesto com as patas e um barulho estranho.
– Alguém entende o que ele fala? – pergunta a Garota
– Acho que não.

Finalmente alcançam a prefeitura, onde encontram o Prefeito Porco Suíno andando por ali sem a cabeça, esbarrando nas paredes.

– Trouxe a Garota – diz o Rato
– Que bom que veio, menina – fala a vice-prefeita Clara, sentada na mesa do prefeito. – Precisamos da sua ajuda.
– O que houve vice-prefeita? – pergunta a menina.
– Como pode ver, minha querida, nosso querido prefeito, o senhor Porco Suíno, acordou hoje sem cabeça. Ele a perdeu. E não conseguimos encontrá-la em lugar nenhum.
– Que mistério! Isso parece um trabalho para a Garota Impossível.

***

– Carambola! Acho que perdi meu caderninho de anotações! – Reclama a Garota.
– Isso sempre acontece por aqui. – Explica o Homem Rato mexendo em seus bigodes brancos – Todo mundo perde coisas o tempo todo.
– Esta não é a Cidade da Perdição por nada – completa a vice-prefeita
– Entendi. Acho que temos um ladrão-em-série aqui. – diz a Garota. – Não se preocupe vice-prefeita Clara, eu vou pegá-lo.

Nossa heroína passa o dia entrevistando os habitantes da cidade: o Professor sem Nome, que perdeu seu nome já no dia do nascimento; o Peixeiro Bill, que perdeu o olfato; a Pirata Ninja, que perdeu sua perna e um olho; o Dr. Tamanduá, que perdeu sua bandeira; a Cavaleira Andante, que perdeu seu cavalo; a Dona Maria, que perdeu uma torta na janela; e o Povo do Esgoto, que perdeu suas casas.

Os casos não parecem ligados, nenhuma das entrevistas indica o possível serial-ladrão e a Garota sente que está deixando alguma coisa passar. “Se tivesse meu caderninho seria tudo mais fácil”, pensa ela, “Mas não é hora de desanimar!” Ela segue com a investigação.

– Quem é aquele? – pergunta ela apontando para um homem. Ele estava parado há horas imitando a estátua do Homem que Aponta para o Oeste.
– Aquele é o Varrido – responde o Homem Rato – Ele é doido.
– Vou conversar com ele.
– Não sei se isso vai ajudar muito.
– Não custa tentar, não é mesmo?.

***

– Olá senhor Varrido – diz a Garota Impossível – Podemos conversar?
– Agora não – responde o louco. – Estou ocupado tentando ser uma estátua. Desculpe.
– Para mim, você já parece uma estátua.
– Sério?
– Sim. Me convenceu.
– Bom… – ele parece pensativo – Acho que terminei por aqui, então. Podemos conversar agora.

Os dois sentam em um banquinho perto da Fonte Quebrada dos Desejos e dividem um sanduíche de tomate:

– O prefeito Porco Suíno perdeu a cabeça. – diz ela.
– Eu sei. – Ele responde.
– Estou tentando entender as perdas que acontecem na cidade. O senhor perdeu alguma coisa?
– Você não entenderia criança. – a voz do Doido Varrido é tranquila – Eu perdi tudo.

Se entreolham e depois ficam em silêncio por algum tempo olhando para a água.

– Você parece mais esperto do que louco. – disse ela. – Sabe de algo que eu não sei?
– Sei de muitas coisas que você não sabe, menina. Nenhuma delas faz sentido.
– Eu não entendo.
– Me deixe explicar.

O louco levanta e para na frente dela, como um professor.

– Esse mistério que você procura resolver não faz o menor sentido. Não para você. – diz ele. – O problema surge do meu lado da realidade e a solução está aqui, muito clara para mim. Você nunca vai encontrar enquanto procurar aí desse lado. Você precisa vir para cá. Você precisa perder o bom-senso.

O homem louco faz uma pausa e se aproxima da garota.
Mas antes você precisa se perguntar: “Será que vale a pena?” – e vai embora.

***

A Garota Impossível fica ali, sentada, pensando por algum tempo: “Mas é claro que vale a pena. Eu sou a Garota Impossível, nenhum mistério é impossível pra mim. Será que eu consigo perder o bom-senso?” e “É claro que consigo. Eu estou aceitando conselhos de uma maluco, ora bolas.”.

Nesse momento, nossa heroína resolve enlouquecer. Corre com os cachorros pretos da senhorita Margarida; grita com as árvores; toma banho na fonte; se transforma em estátua; tem uma conversa telepática com o Prefeito Porco “Agora Sem-Cabeça” Suíno e joga xadrez sozinha.

Finalmente, durante uma luta de vida-ou-machucados contra o Coelho-realmente-feroz, ela encontra a resolução para o mistério. É idiota? Sim. É sem-noção? Também. Mas com certeza iria funcionar. Ela continua lutando com o coelho até ser derrotada.

***

Mais tarde, o prefeito Porco Suíno, agora com cabeça, entrega à Garota Impossível, a medalha de heroína-nomeadora da cidade. Ela se despede de todos e se prepara para ir embora.

Já no caminho de volta, ela bate a mão no bolso da camisa para garantir que seu caderninho de notas recém encontrado ainda está ali. Ele está. E nele, a história da cidade e de como seu novo nome, Cidade da Achação, resolveu um mistério que não fazia o menor sentido.

A Garota Impossível chega em casa na hora do lanche da tarde. Ela come seus biscoitos com leite enquanto pensa na aventura de amanhã.

Ela sorri.
FIM?

Por hoje é isso. Espero que tenha gostado.
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Um abraço.
E tchal.

post publicado originalmente por mim no Portal Cultura Nerd e Geek






Vulto

Desprezível.

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